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terça-feira, 22 de março de 2011

Não li, mas aprovo!

Ivan Silva

   Garimpando na internet, encontrei um livro fantástico. Ainda não o li, mas só pela pequena e grandiosa sintese no poeirablog.wordpress, dá pra ver que se trata de uma verdadeira preciosidade. É o livro Histórias Perdidas do Rock Brasileiro Vol.1, de Nélio Rodrigues, publicado pela Nipress Editora. De acordo com o blog, a obra revela o espetacular cenário roqueiro que antecedeu a explosão das bandas de rock nacionais dos anos 80. Bandas como The Bubbles (que depois passou a se chamar A Bolha), Analfabitles, Os Selvagens, Módulo 1000, entre outras, fizeram a farra da galera entre os anos 60 e 70, tocando em locais diversos e com uma aparelhagem da pesada, superando o equipamento de muitas bandas conhecidas e de prestígio. Algumas levavam a sério a conhecida filosofia "sexo, drogas e rock n' roll".  Nélio Rodrigues mostra que nem só de Mutantes, Raul Seixas e Secos e Molhados viviam os roqueiros brasileiros naquela dura época de ditadura militar e censura no Brasil.
   Quero ter o prazer de lê-lo, claro, assim que eu o encomendar pela internet e o meu tempo permitir. Quem puder comprar e ler esse livro com certeza conhecerá o fascinante mundo rock n' roll que construiu os alicerses sobre os quais estão os domínios do rock nacional underground e, acredito, do mídiatico. Os roqueiros que a mídia pôs no top of word naqueles tempos muita gente já conhece, não é?  Vale a pena então conferir o que acontecia no submundo, por onde só quem era de fato louco e desejava se libertar e viver a filosofia rock n' roll de verdade caminhava.
    Confira o texto com detalhes sobre o livro e uma entrevista feita a Nélio Rodrigues no Poeira Blog, da grande revista Poeira Zine.

Um abraço a todos!

sexta-feira, 11 de março de 2011

Uma pequena porcentagem de alegria

Marcelo Victor


   É, parece que o mundo está mudando. Pena que a gente só fecha a janela depois que o ladrão já levou a televisão. Mas pelo menos o roubo já está claro pra todo mundo. Do que eu estou falando? Do documentário "Inside Job" de Charles Ferguson que, na madrugada de 28 de fevereiro, levou o Oscar na sua categoria.
   O documentário trata das artimanhas utilizadas por consultores de Wall Street para esconder os rombos que existiam nos bancos espalhados pelo mundo, e levar o problema até um patamar onde a crise estouraria de forma aterrorizante, induzindo a população a aceitar a aprovação de um pacote trilhonário “para salvar a economia americana”.
   Dentre outros envolvidos, o filme retrata a figura de Lawrence Summers, que entre outras proezas, ficou conhecido por declarações polêmicas como recomendar o incentivo à deslocalização de indústrias poluidoras para os países da periferia, e enquanto Reitor de Harvard, decretou a incapacidade da inteligência feminina em lidar com as complexidades das "hard sciences"(Ciências Duras).
   O documentário mostra que Summers faturou uma nota preta ao ministrar palestras remuneradas pelos “senhores das finanças” sobre as maravilhas da desregulamentação financeira. Entre suas idas e vindas ao governo, dedicava-se a assessorar instituições financeiras mediante farta remuneração.
   Enquanto secretário do Tesouro de Clinton, Lawrence Summers trabalhou intensamente para a aprovação no Congresso dos Estados Unidos do Gramm-Leach-Bliley Act. Essa lei derrotou a legislação dos anos 1930, o Glass-Steagal Act, que separava os bancos de depósito, os bancos de investimento, seguradoras e instituições voltadas para o financiamento imobiliário e "fundeadas" na poupança das famílias. As transformações ocorridas no sistema financeiro após isso desataram a livre e brutal concorrência no capitalismo das grandes empresas e das grandes instituições financeiras, segundo Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, em seu site.
   Para quem não entende muito de economia, que é o nosso caso, basta saber que os bancos que tinham a responsabilidade de cuidar das poupanças e dos financiamentos de imóveis populares, puderam, a partir da nova lei, brincar com o dinheiro alheio no mercado de ações, mesmo existindo o risco de perder tudo. Isso causou a crise.
   Outro caso assustador e também constrangedor, entre tantos de "Inside Job", é o do economista Frederick Mishkin. Ex-membro do Federal Reserve, Mishkin não consegue explicar porque às vésperas do colapso dos bancos da Islândia, produziu um relatório que assegurava a estabilidade do sistema financeiro do país, mediante um pagamento de US$ 124 mil. É incrivelmente grotesca a descoberta tais fatos.
   Mas como eu dizia no início, parece que o mundo está mudando. Digo isso porque essas práticas do sistema financeiro não são novas. A crise de 29, a crise do petróleo na década de 70, todas saíram desse mesmo manual. A diferença é que antes a população ficava alheia a todo o processo. Hoje temos um documentário sendo premiado por mostrar as armações de tais instituições. Vejam só que reviravolta, que progresso. De algum modo, sinto uma pequena “porcentagem” de alegria.


Marcelo Victor é psicólogo, especialista em educação e trabalha no Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador-TO). 


terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Literatura: Khaliu Gibran "As Sonâmbulas"

V Dia

As Sonâmbulas

  Na cidade onde nasci, viviam uma mulher e sua filha. E ambas eram sonâmbulas.
  Uma noite, quando o silêncio envolvia o mundo, a mulher e a filha, caminhando no sono, encontraram-se no jardim, meio velado pela neblina.
  E a mãe falou: “Por fim, por fim, minha inimiga! Aquela por quem minha juventude foi destroçada, que construiu sua vida sobre as ruínas da minha! Pudesse matá-la.”
  E a filha falou: “Ó odiosa mulher, velha e egoísta, que se antepõe entre mim e meu Eu livre, que gostaria de fazer de minha vida um eco de sua vida fanada! Quem dera estivesses morta!
  Nesse momento, uma galo cantou, e ambas as mulheres acordaram. A mãe perguntou ternamente: “És tu, querida?” E a filha respondeu ternamente: “Sim, querida.”


Série 35 dias com Khaliu Gibran. Todos os dias um novo texto de um 
dos maiores representantes da Literatura Árabe.

Alguém conhece o ditador egípcio?

Marcelo Victor

Hosni Mubarak
   Vamos fazer uma pequena retrospectiva até o final de dezembro de 2010. Quem de nós, há exatos trinta dias, sabia que o Egito era governado por uma ditadura que já dura trinta anos? Quem já tinha ouvido o nome Hosni Mubarak, o presidente ditador? Aposto que quase ninguém. E não é de se admirar que seja assim, uma vez que essas notícias não são divulgadas.
   Nós sabemos (pois eles nos dizem) que no Irã tem um ditador no poder, sabemos que na Coréia do Norte tem um ditador no poder, sabemos que Fidel e Chavez são ditadores, mas do Egito nós não sabemos nada. E por quê? Quem arrisca dar a resposta? Quem apóia o governo de Hosni Mubarak? Acertou quem disse Estados Unidos.
   Pra quem não sabe, o Egito é o braço direito dos Estados Unidos no mundo árabe. Graças a sua localização, o país é a rota por onde passa todo o carregamento de petróleo com destino a América, através do Canal de Suez. E como o óleo negro é o combustível que faz daquele país a grande potência que é, eles não podem deixar de ter boas relações com esse porto estratégico.
    Mas a questão que fica é: Algumas ditaduras, principalmente as que não negociam com o FMI, são alvo de ataques por parte da imprensa diariamente, assim como também são alvos de guerras. Mas as ditaduras que “são do esquema”, que aceitam as regras, essas têm o apoio dos “defensores dos oprimidos e da paz”, e ficam intocadas inclusive pela imprensa ridiculamente manipulada.
    Não estou dizendo aqui que essa barbárie de dar base a governos ditadores seja uma prática do governo de Barack Obama. Como disse, a ditadura lá existe há trinta anos. Se instalou bem antes de Obama, Bush ou Clinton sentarem na cadeira de presidente. E falando em Clinton, a ex-primeira-dama Hillary declarou, na semana passada, que o regime de Mubarak era estável, e não havia risco deste deixar o poder. Acredito que o discurso já mudou depois dos últimos acontecimentos.
   O engraçado é que o presidente Lula era crucificado e acusado de “passar a mão na cabeça” dos ditadores pelo mundo afora, quando se omitia de tomar posição ante a alguns fatos. Ao ver o que os seus colegas, o presidente americano e francês (que também apoiavam a ditadura de Ben Ali na Tunísia) fazem, fica parecendo piada o que divulga a mídia brasileira.
   Apesar da tentativa do governo egípcio de censurar a internet no país, as notícias continuam correndo o mundo, assim como as imagens da população nas ruas, lutando pela queda do regime. Os mortos já somam 120, mas há rumores de que o exército já começa a se recusar a reprimir os protestantes. Primeiro sinal de que o fim dos conflitos está próximo. Fica a minha torcida pela vitória do povo.


Marcelo Victor é psicólogo, especialista em educação e trabalha no Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador-TO). 

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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Literatura: Khaliu Gibran "O Espantalho"

IV Dia


  Uma vez, disse eu a um espantalho: "Deves estar cansado de permanecer ai nesse campo solitário."
  E ele me respondeu: "O prazer de espantar é profundo e duradouro, e jamais dele me canso."
  Depois de um minuto de reflexão, retruquei: "É verdade; pois eu também já conheci esse prazer."
  Respondeu: "Só podem conhecê-lo aqueles que estão cheios de palha."
  Depois, deixei-o sem, sem saber se ele me elogiara ou injuriara.
  Passou-se um ano, durante o qual o espantalho se tornou um filósofo.
  E quando passei novamente perto dele, vi dois corvos fazendo ninho debaixo do seu chapéu.
  
Continua...

Contra Belo Monte!

Ivan Silva
  
    Já faz algum tempo que um e-mail está incomodando, no bom sentido, muitos internaltas. Ele é assinado pela Avazz (voz, em várias línguas da Europa) uma comunidade virtual cujo objetivo é tornar público os anseios da sociedade civil do mundo inteiro,  cobrando respostas e soluções por parte do poder público. No e-mail há um link que conduz ao seu site, onde é possível conhecer suas ações, campanhas que realiza, história e a forma como as pessoas podem ajudar. Na pagina inicial, uma mensagem muito interessante: “uma comunidade transnacional que é mais democrática e poderia ser mais eficaz que as Nações Unidas”.
   E não é propaganda falsa não. Pela causa defendida no e-mail, pode-se perceber que se trata realmente de uma comunidade séria e que merece bastante a atenção dos brasileiros. A Avazz faz um apelo urgente para que os internaltas assinem a petição contra o Projeto Belo Monte, que visa a construção de uma usina hidrelétrica no Estado do Pará, coração da Amazônia, em um trecho de 100 km no Rio Xingu.
   Segundo a comunidade e vários ambientalistas brasileiros, o projeto vai gerar um imenso desastre ambiental, pois provocará redução do fluxo de água no rio, devido à alteração no regime de escoamento do Xingu, o que afetará a fauna e a flora da região. Além disso, a usina vai causar um grande alagamento que comprometerá os igarapés Ambé e Altamira e parte da área rural de Vitória do Xingu. A vazão da água a jusante do barramento do rio em Volta Grande do Xingu será bastante reduzida e o transporte fluvial até o Rio Bacajá (um dos afluentes da margem direita do Xingu será interrompido). Comunidades ribeirinhas e indígenas dependem deste tipo de transporte para chegarem à cidade de Altamira, onde fazem consultas médicas diversas e comercializam peixes e castanhas, uma de suas formas de sobrevivência.  
   O desafio da Avazz é conseguir mobilizar o poder público para interromper tão desastroso projeto. A comunidade acredita que o Brasil é capaz de produzir energia limpa em potencial, diminuindo o uso da energia suja produzida pelas usinas hidrelétricas. No primeiro e-mail, ela pede que os internaltas assinem uma petição via internet no intuito de juntar o máximo de assinaturas para convencer a presidente Dilma Rousseff a não concordar com o projeto. Mas pelo apelo no segundo e-mail, recebido por muitos internaltas hoje, dá pra ver que a ação não teve tanto êxito. A Avazz afirma: o governo aprovou uma licença parcial que libera a derrubada de árvores na região para a construção de Belo Monte, e  o Ministério Público do Pará declarou que a licença é ilegal e que não poderia ser emitida sem o cumprimento das condicionantes ambientais. A comunidade ainda afirma que a presidente Dilma “está se fazendo de surda”.
   Devido à falta de sucesso na primeira empreitada contra o projeto Belo Monte, a Avazz pede que todos liguem para o gabinete da presidente Dilma e exijam a revogação da licença ambiental que é a porta de entrada para o caos na Amazônia. Tão contundente ação por parte da comunidade virtual é uma grande demonstração de que seus ideais são dos mais sinceros e de que a opinião pública deve ser a voz soberana de uma nação. Utilizar o melhor meio, a internet, para mobilizar a população a se envolver numa causa mais que justa e preocupante é uma ótima estratégia. Nenhum meio de comunicação e mais democrático e livre. E todos os brasileiros devem se manifestar contra ou a favor o projeto Belo Monte. Afinal, é a Amazônia que está em jogo, mais uma vez!



quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Literatura: Khaliu Gibran "Meu amigo"


III Dia


Meu Amigo

   Meu Amigo, não sou o que pareço. O que pareço é apenas uma vestimenta cuidadosamente tecida, que me protege de tuas perguntas e te protege da minha negligência.
  Meu Amigo, o Eu em mim mora na casa do silêncio, e lá dentro permanecerá para sempre, despercebido, inalcançável.
  Não queria que acreditasses no que digo nem confiasses no que faço – pois minhas palavras são teus próprios pensamentos em articulação e meus feitos, tuas próprias esperanças em ação.
 Quando dizes: “O vento sopra do leste”, eu digo: “Sim, sopra mesmo do leste”, pois não queria que soubesses que minha mente não mora no vento, mas no mar.
 Não podes compreender meus pensamentos, filhos do mar, nem eu gostaria que compreendesses. Gostaria de estar sozinho no mar.
 Quando é dia contigo, meu Amigo, é noite comigo. Contudo, mesmo assim falo do meio-dia que dança sobre os montes e da sombra de púrpura que se insinua através do vale: porque não podes ouvir as canções de minhas trevas nem ver minhas asas batendo contra as estrelas – e eu prefiro que não ouças nem vejas. Gostaria de ficar a sós com a noite.
  Quando ascendes a teu Céu, eu desço ao meu Inferno – mesmo então chamas-me através do abismo intransponível, “Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada”, e eu te respondo: “Meu Amigo, Meu Companheiro, Meu Camarada” – porque não gostaria que visses meu Inferno. A chama queimaria teus olhos, e a fumaça encheria tuas narinas. E amo demais meu Inferno para querer que o visites. Prefiro ficar sozinho no Inferno.
  Amas a Verdade, e a Beleza, e a Retidão. E eu, por tua causa, digo que é bom e decente amar essas coisas. Mas, no meu coração rio-me de teu amor. Mas não gostaria que visses meu riso. Gostaria de rir sozinho.
  Meu Amigo, tu és bom e cauteloso e sábio. Tu és perfeito – e eu também, falo contigo sábia e cautelosamente. E, entretanto, sou louco. Porém mascaro minha loucura. Prefiro ser louco sozinho:
  Meu Amigo, tu não és meu Amigo, mas como te farei compreender? Meu caminho não é o teu caminho. Contudo juntos marchamos, de mãos dadas.

Continua...
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Poesia
                                                                                                                                

Chuva
Ivan Silva
A chuva desabou das alturas
E me estraçalhou como um beijo,
Fundindo seu manto colossal
De vento e umidade ao meu velho
Corpo que refugia-se nessa forte emoção.

Andorinhas sobrevoam as searas encharcadas,
Cortando os ares com seus corpos fortes.
A terra acorda para o fenômeno, a
Metamorfose que dá aos céus uma
Cor furiosa e um semblante de deus grego.

Peço à chuva que se jogue sobre
O solo seco da humanidade, e
Se una a ela com a cumplicidade
Que há entre a raiz e o chão, um
Gostoso romance entre elementos
De sigilosas e ímpares naturezas.



Poesia escrita em 2009. No dia em que a escrevi chovia bastante, e acho que me deixei levar pelo clima gostoso. Será que levo jeito para a poesia? Bom, gosto de me arriscar de vez em quando.