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sexta-feira, 11 de março de 2011

Uma pequena porcentagem de alegria

Marcelo Victor


   É, parece que o mundo está mudando. Pena que a gente só fecha a janela depois que o ladrão já levou a televisão. Mas pelo menos o roubo já está claro pra todo mundo. Do que eu estou falando? Do documentário "Inside Job" de Charles Ferguson que, na madrugada de 28 de fevereiro, levou o Oscar na sua categoria.
   O documentário trata das artimanhas utilizadas por consultores de Wall Street para esconder os rombos que existiam nos bancos espalhados pelo mundo, e levar o problema até um patamar onde a crise estouraria de forma aterrorizante, induzindo a população a aceitar a aprovação de um pacote trilhonário “para salvar a economia americana”.
   Dentre outros envolvidos, o filme retrata a figura de Lawrence Summers, que entre outras proezas, ficou conhecido por declarações polêmicas como recomendar o incentivo à deslocalização de indústrias poluidoras para os países da periferia, e enquanto Reitor de Harvard, decretou a incapacidade da inteligência feminina em lidar com as complexidades das "hard sciences"(Ciências Duras).
   O documentário mostra que Summers faturou uma nota preta ao ministrar palestras remuneradas pelos “senhores das finanças” sobre as maravilhas da desregulamentação financeira. Entre suas idas e vindas ao governo, dedicava-se a assessorar instituições financeiras mediante farta remuneração.
   Enquanto secretário do Tesouro de Clinton, Lawrence Summers trabalhou intensamente para a aprovação no Congresso dos Estados Unidos do Gramm-Leach-Bliley Act. Essa lei derrotou a legislação dos anos 1930, o Glass-Steagal Act, que separava os bancos de depósito, os bancos de investimento, seguradoras e instituições voltadas para o financiamento imobiliário e "fundeadas" na poupança das famílias. As transformações ocorridas no sistema financeiro após isso desataram a livre e brutal concorrência no capitalismo das grandes empresas e das grandes instituições financeiras, segundo Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo, em seu site.
   Para quem não entende muito de economia, que é o nosso caso, basta saber que os bancos que tinham a responsabilidade de cuidar das poupanças e dos financiamentos de imóveis populares, puderam, a partir da nova lei, brincar com o dinheiro alheio no mercado de ações, mesmo existindo o risco de perder tudo. Isso causou a crise.
   Outro caso assustador e também constrangedor, entre tantos de "Inside Job", é o do economista Frederick Mishkin. Ex-membro do Federal Reserve, Mishkin não consegue explicar porque às vésperas do colapso dos bancos da Islândia, produziu um relatório que assegurava a estabilidade do sistema financeiro do país, mediante um pagamento de US$ 124 mil. É incrivelmente grotesca a descoberta tais fatos.
   Mas como eu dizia no início, parece que o mundo está mudando. Digo isso porque essas práticas do sistema financeiro não são novas. A crise de 29, a crise do petróleo na década de 70, todas saíram desse mesmo manual. A diferença é que antes a população ficava alheia a todo o processo. Hoje temos um documentário sendo premiado por mostrar as armações de tais instituições. Vejam só que reviravolta, que progresso. De algum modo, sinto uma pequena “porcentagem” de alegria.


Marcelo Victor é psicólogo, especialista em educação e trabalha no Cerest (Centro de Referência em Saúde do Trabalhador-TO). 


2 comentários:

Ivan Silva disse...

Ótimo texto, Marcelo Victor!

Mohamed Dramane disse...

interessante!